Belo Horizonte

BH: Megalópole da Província das Minas

Márcio Borges

Quem chegar aqui vai ser bem recebido com a nossa proverbial hospitalidade e sem-cerimônia. Mas também não precisa fazer como o cantor de axé baiano que chegou na primeira noite e bradou para o Mineirão superlotado de belorizontinos que gostam dessas coisas: “Boa noite, Beó!”. B.O!!! Se eu não me lembrasse daquele miúdo crítico da inexorável transformação da paisagem urbana, que era eu mesmo, essa santa “inguinorânssia” teria me assustado ainda mais do que meu primeiro grande choque de cidadania, que foi a derrubada dos fícus da Avenida Afonso Pena para dar lugar aos automóveis e tróleibus, árvores imensas que povoaram as infâncias belorizontinas dos anos 50 e 60 com sonhos vergéis e verdadeiros ecossistemas florestais, em pleno centro da cidade de Belo Horizonte.

Há muitos anos, ela ganhou não só essas árvores, mas também uma variada feira de artesanato, que agita o centro da cidade todos os domingos.”

Hoje, as árvores que cresceram depois não são tão monumentais como as daqueles tempos, mas estão lá de novo e isso foi muito bom para a Avenida, como chamamos a Afonso Pena na nossa intimidade. Há muitos anos ela ganhou não só essas árvores, mas também uma variada Feira de Artesanato, que agita o centro da cidade todos os domingos. Um formigueiro de gente desfila entre barracas de iguarias mineiras, trombando em baianas vestidas a caráter que vendem seus acarajés, estátuas vivas pedindo um trocado, esculturas à venda em todos os suportes, pedra-sabão, madeira, arame, brinquedos, telas de pintura, roupas, móveis, pratarias, fazendas e rendas, ervas medicinais, instrumentos musicais, pilhas e eletrônicos.

Feira de Artesanato da Avenida Afonso PenaO movimento se espalha pelo Parque Municipal adentro. O laguinho sobrecruzado por pontezinhas curvas, o coreto art-nouveau, os barquinhos a remo, o parque de brinquedos e as árvores seculares dão prazer visual, diversão e sombra a quem procura esse tão democrático e acessível refúgio, a dois passos de uma muvuca difícil de se imaginar para além daquela espessa paliçada de verdes e águas.

O Palácio das Artes, jóia do Parque, é um dos lugares mais agradáveis do centro da cidade. A presença diária de jovens estudantes de artes, as elegantes temporadas de óperas, os mais concorridos shows musicais, as galerias de exposições, o café, a mata verde, tudo no PA honra o nome de seu mais ilustre mentor, Alberto da Veiga Guignard, o nosso Matisse, que deu aulas ali e perpetrou obras-primas na vizinha Ouro Preto, cidade que nenhum visitante de Belo Horizonte devia deixar de conhecer, tão linda e pertinho que é.

Outro Preto (MG)E estando a vagar por entre as ruelas e calçadas de pedras, as dezenas de igrejas barrocas e os pontos turísticos dessa Vila Rica, inevitável é dar um pulinho a Mariana, menos de 20 minutos de distância da Praça Tiradentes. E aí o neomineiro terá conhecido dois dos nossos maiores tesouros históricos. Se quiser mais três, ele torna a pegar a BR-040, hora e pouco de carro, passa por Congonhas, cidade dos famosos profetas do Aleijadinho, e logo ali adiante já estará em São João del-Rei e Tiradentes, cidades geminadas pelo gênio barroco dos mineiros.

De volta a Beagá, um cafezinho na Praça Sete, de frente para o seu modesto mas honrado obelisco, conhecido pela debochada alcunha de Pirulito da Praça Sete. É verdade que ele está lá até hoje, fincado no meio da Avenida, como marco perene da cidade, mas está lá porque voltou, depois de ter sido arrancado e replantado na Praça da Savassi, onde, ninguém sabe ao certo por que, ele passou uns estranhos tempos.

A Savassi viu com bastante alívio o pirulito errante voltar a seu lugar na Praça Sete, mas o tempo tratou de colocar naquela pracinha de bairro, cujo principal atrativo era o delicioso cheiro de pão novo da extinta Padaria Savassi, o comércio, as grifes, as mulheres, os modelos, as lojas e restaurantes mais badalados e sofisticados de Belo Horizonte. O metro quadrado mais caro da capital, ou um dos mais. Numa de suas esquinas, o grande cronista da Savassi, o atleticano doente Roberto Drummond, está lá parado há anos, parece que querendo atravessar a rua, eternizado em bronze.

Beagá ainda guarda em vários locais, escondidos entre arranha-céus, ruas apinhadas e vias expressas, certos ares de uma Paris provinciana.”

Beagá ainda guarda em vários locais, escondidos entre arranha-céus, ruas apinhadas e vias expressas, certos ares de uma Paris provinciana. Os metais trabalhados, as escadarias monumentais e os cristais do Palácio da Liberdade retinem até hoje na memória do visitante esse ar parisiense. A própria Praça da Liberdade, com sua simetria das Tuilleries e seus prédios neoclássicos, dá uma piscadela a esse parentesco. Quem anda pelo centro da cidade com esse olhar atento vê mais algumas poucas marcas europeias que ainda restam em casarões, esquinas históricas e outros monumentos quase anônimos que desafiam o tempo.

Muita coisa não teve a mesma sorte. O campo do América, por exemplo, o famoso Estádio da Alameda, há muito tempo virou supermercado. Os mais jovens nem sabem disso. Em compensação, o antigo campo do Sete – Estádio Independência – está ficando cada vez mais bonito e bem conservado, no alto do Horto. O Mineirão, palco de inesquecíveis duelos entre Galo e Cruzeiro, arena onde desfilaram craques como Reinaldo e Tostão, Cerezo e Dirceu Lopes, também passa por uma extensa reforma, que o preparará para as emoções de uma Copa do Mundo.

Igreja São Francisco de Assis PampulhaMas a Pampulha ainda está lá, firme e forte, linda, com sua enorme lagoa, as obras famosas de Niemeyer, a Igreja, a Casa do Baile, o Iate Clube, o antigo Cassino (hoje Museu de Arte da Pampulha), passeio dos mais agradáveis e visita imperdível até para nós, moradores da cidade. Quem mora aqui sabe que dar uma esticada até o Zoológico também é diversão garantida na Pampulha. É um belo de um Zoológico. Assim como é diversão garantida visitar a noite de Santa Teresa e suas dezenas de barzinhos, onde rolam música ao vivo, balada até de madruga e boas conversas em mineirês: “Ce sá sês ônbus pas na savás?”, que, traduzido para o brasileiro, quereria dizer: ”Você sabe se este ônibus passa na Savassi?”. Ou entreouvido num posto de gasolina: “Qué qui ói u ói?”. Em brasileiro: “Quer que eu olhe o óleo?”. E a resposta do belorizontino atrás do volante: “Ói u ói aí, uai”.

Santa Teresa tem tradição musical, é o berço do Clube da Esquina e patrimônio cultural da cidade, assim como o Bar do Bolão, aberto 24 horas por dia a todos que apreciam uma cerveja bem gelada e um suculento prato de macarronada. Melhor só pão com ovo. Ou melhor: fígado com jiló, no Mercado Central, o epicentro da mineiridade, que sacode e abala as ruas dessa nossa paradoxal Beagá.

Megalópole com ares de província, 2 milhões de habitantes que se tratam de “cê”. Lugar de onde basta seguir uma hora em frente, em qualquer direção, para já estar no meio da roça mais fantástica e folclórica. Quem quiser ver até onde vai esse belo horizonte, suba ao último andar da torre panorâmica do Alta Vila. Verá então como estamos perdidos como casquinhas de nozes em meio a um mar de montanhas. Bão demais da conta.

Sobre o autor

Márcio Borges é escritor e letrista. Autor dos livros Os sonhos não envelhecem – Histórias do Clube da Esquina, Os 7 falcões, entre outros.

  • Oh Belo Horizonte, Oh Minas Gerais, quem te conhece, não esquece jamais….Oh Minas Gerais…

  • Dica de uma BH Imperdível: Utopia! Karaokê na Praça Raul Soares.

  • BHGATAS!
    Recomendo o tradicional Bar do Antônio, no Bairro Sion!

    Medalão de Boi com uma cachaça e cerva pra acompanhar!

  • Guilherme Carnilão

    Ô Terra boa…

    Tomar cachaça ao lado de uma gata, assistindo o Galo Doido jogar!

  • Marlon

    Tenho um carinho especial pela Pampulha e pelos parques e praças de BH! Espaços democráticos com muito verde e que poderiam ser mais aproveitados pela população! Vamos ocupar os espaços públicos!

  • Lígia Pereira

    Saudades gigantescas desta terra tão querida!
    Saudades do jeito mineiro de saudar a vida!

  • Gi

    Para quem gosta de uma cerveja bem gelada, figado com jiló (prato tradicional da capital mineira) e gente animada, vá ao Mercado Central de BH.

  • david

    eu amo esse lugar!!!

  • rodrigo olivira andrade

    nossa fui e adorei. vou volta de novo com certeza o luga bom.

  • peter abram

    ho! le Bresil , ho! belo horizonte la ville d´aceille, la ville da legresse… que te conhece nunca te esquece